Flor desenhada à mão na noite de 07/04/26 — uma prática de despoluição mental antes de dormir
Nosso inconsciente é uma verdadeira caixa de surpresa, nunca sabemos o que emergirá dela. Carl Gustav Jung, profundo conhecedor da linguagem simbólica, foi talvez o maior estudioso da psique que percorreu diversos povos, em uma época em que explorar era extremamente exaustivo e demorado. Em sua obra ‘Os arquétipos e o inconsciente coletivo, § 622‘ Jung explica que o fazer artístico e despretensioso possui autonomia própria: “Enquanto pintamos, o quadro se desenvolve por si mesmo e muitas vezes até contrariando a intenção consciente.”
Comecei a pintar essa flor à noite, antes de dormir, com a intenção de despoluir a minha mente. E enquanto desenhava, estava ficando entediada. Com o passar do tempo foi ficando prazeroso — mas em certos períodos, chato novamente. As linhas e pontos foram caminhando para algo harmonioso sem que eu soubesse, no início, para onde iriam.
Não era intenção transformar este momento em um post, mas achei interessante e importante trazer uma experiência tão importante, mas que não é dito de forma tão direta e expontânea. No dia posterior, fui pintando e pensando. Ao olhar para ela, a pintura parecia fácil — mas os pequenos detalhes me deixavam entediada novamente. À medida que ia pintando, novas formas foram aparecendo. E mais empolgada fui ficando.
E tirei um aprendizado — aquele que só o processo, e não o resultado, é capaz de ensinar:
Não é porque a gente pega algo para nos acalmar que será tão rápido quanto queremos. É à medida que vamos criando um hábito — e criando algo tão valioso — que vamos adquirindo a habilidade de estarmos calmas e sentirmo-nos cada vez mais habilitadas e harmoniosas para sermos quem somos. Tudo é questão de aproximação com o que há de mais puro em nós.
Alguns vão pescar, outros vão dançar, alguns caminham muitas vezes sem direção — só querem andar. Eu gosto de escrever, desenhar e pintar. Contribui para a minha regulação emocional, para relaxar e respirar. Se você sente que precisa de uma pausa para tudo e conseguir esfriar a cabeça, compreende o que estou dizendo.
JUNG E O INCONSCIENTE O que Jung tem a dizer sobre isso tudo
Quando iniciei a jornada de autoconhecimento, não conseguia compreender a profundidade do ser/estar consciente — mesmo quando já utilizava trabalhos manuais na minha prática clínica e educacional. Para mim, essas técnicas seriam muito importantes para pessoas com algum transtorno mental. Mas eu ainda não sabia o quanto elas me atingiriam em camadas bem mais profundas.
“O inconsciente é como a terra do jardim, da qual brota a consciência. A consciência se desenvolve a partir de certos começos, e não surge logo como algo de completo e acabado.”
C. G. Jung — O desenvolvimento da personalidade, § 102
Para diminuir a carga emocional, costumo recorrer à escrita ou aos desenhos. Mas naquele momento, eu não estava nem um pouco a fim de saber o que estava contido no meu inconsciente — apenas ficava presente, prestando atenção nas linhas e semicírculos que se formavam. Só depois do processo recorro ao conhecimento dos símbolos e aos estudos junguianos.
No passado, achava que fazia as escolhas de forma consciente. Hoje sei que, na verdade, estava agindo sob o comando do meu inconsciente.
Achava que, em momentos de introspecção, estava escolhendo a técnica e as formas puramente pela estética. Assim agimos na nossa rotina também: entramos em contato com nossas sombras e fazemos projeções das cenas que os nossos olhos veem.
Quem já chegou a um ambiente onde estava acontecendo uma discussão e reagiu imediatamente — defendendo ou acusando alguém sem ao menos saber o que estava acontecendo ali antes de você entrar? Depois, ao refletir, veio à tona algo que em você está latejando feito brasa. Algo que você ainda não sabe como lidar dentro de si.
A PRÁTICA Como a expressão artística libera o que não cabe em palavras
Quando criamos algo — seja dançando, caminhando, tocando algum instrumento, desenhando ou escrevendo — colocamos para fora conteúdos internos que, ao elaborarmos, encontram curas profundas da nossa psique.
Como Jung analisava as emoções? Ele as via como energia em movimento — não apenas como sentimentos e sensações. Quando não extravasamos essa energia, que é um conteúdo psíquico se formando, ela acumula-se através de complexos — como se fossem pequenas personalidades dentro de nós.
A autonomia do inconsciente começa onde se originam as emoções. Estas são reações instintivas, involuntárias que perturbam a ordem racional da consciência com suas irrupções elementares.
C. G. Jung — Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, § 497
Lembra quando, “naquele dia”, você explodiu com uma pessoa de forma desproporcional — e você, e até outras pessoas, perguntaram: “O que aconteceu naquele momento?” Ou você pode dizer: “Acho que estava possuída. Eu não sou assim.” Foi quando o complexo atuou.
⚠ IMPORTANTE Na presença de dores profundas, é importante e salutar que você procure um profissional terapeuta ou psicólogo que a ajude a elaborar e processar o que vier à tona. O meu trabalho pode contribuir muito quando a pessoa já faz algum acompanhamento terapêutico — mas não substitui o cuidado clínico em casos de traumas graves e quadros de psicose.
Como relatei no início, comecei a criar a flor como forma de acalmar a mente para conseguir dormir — pois anteriormente havia feito uso do computador e celular, que além da energia eletromagnética que aumenta a hiperatividade cerebral, ativaram emoções que vieram em loop. O desenho foi liberando essa carga emocional e energética, e após alguns minutos comecei a cochilar.
HUMAN DESIGN E AUTORIDADE EMOCIONAL A onda emocional e o tempo necessário para clareza
Algumas pessoas sentem as ondas emocionais muito intensas e não conseguem ter clareza emocional tão rapidamente. Precisam de um tempo maior para tomar decisões importantes. Se não se derem esse tempo, fatalmente vão se arrepender das escolhas que fizeram.
No Human Design, quem possui a autoridade emocional assim como eu, precisa, especialmente, esperar que a onda emocional passe antes de decidir. Não é lentidão — é sabedoria do sistema.
A clareza emocional pode iniciar através das atividades artísticas ou literárias: escreva algo mesmo que não compreenda naquele momento, faça um desenho ou rabiscos mesmo que ache estranho. O objetivo não é o resultado. É o processo de estar presente em si mesma.
✦ EXPERIÊNCIA PESSOAL Outro dia, criei um desenho, à primeira vista, achei meio estranho. Mesmo assim decidi continuar com o processo. Essa experiência me mostrou que não existe o feio, o belo, ou a busca pela perfeição no desenho intuitivo; existe apenas o deixar fluir o que tiver de vir.
Analisando-o posteriormente, verifiquei que o amarelo indica a luz que chega à consciência através da intuição. Já os círculos dentro dele revelam a fragmentação dessa luz — algo que quer emergir de dentro de mim, mas ainda não está consolidado. É o próprio processo de individuação: o SER tornando consciente os seus estados antes ocultos. Olhe que interessante e belo esse conteúdo psíquico. O que parece estranho no fazer é, muitas vezes, o inconsciente falando a única língua que ele conhece: a dos símbolos.
PRÁTICA GUIADA Ritual de Reorganização Energética: da onda à clareza de si
Este é um convite para você retirar o peso daquilo que parece nos “possuir” nos momentos de crise — o que Jung chamava de complexos — e restaurar o seu centro, a sua integridade. Um ritual pensado especialmente para quem possui autoridade emocional, mas que qualquer mulher pode experienciar.
Os 5 Passos Da imaginação ativa junguiana à expressão artística
1. O Acolhimento — Habitar o Corpo
Antes de tentar entender a emoção, permita que ela ocupe o espaço dela — sem que você seja destruída por isso. Cada emoção tem sua própria vibração física.
Feche os olhos. Onde essa emoção mora hoje? É um aperto no peito, um nó na garganta, um peso no estômago? Respire e apenas observe. Não tente mudar nada ainda. Apenas reconheça: “Eu sinto você aqui.”
2. O Movimento — A Limpeza da Libido
Se a carga emocional está muito alta, nossa consciência fica nublada. A energia precisa circular para não estagnar e virar sofrimento.
Saia da imobilidade. Caminhe sem direção, dance ou apenas sacuda o corpo. Ao mover, você ajuda essa energia a fluir — limpando o excesso para que a clareza possa emergir.
3. A Expressão — Dar Contorno ao Sentir
Com o corpo mais presente, vamos dar uma forma para o que você sentiu. Não buscamos estética — buscamos verdade.
Pegue seus pincéis, lápis ou canetas. Deixe que as cores e formas fluam. Ao colocar a emoção no papel, você cria uma distância saudável — você deixa de ser a dor e passa a ser a criadora que observa a dor.
4. O Diálogo — A Escuta do Inconsciente
Com a imagem ou o texto à sua frente, você agora é a observadora consciente.
Olhe para o que você criou e pergunte com carinho: “O que você está tentando me mostrar?” Anote a primeira palavra que surgir, por mais estranha que pareça. É o seu inconsciente conversando com você.
5. A Integração — O Encontro com o Ser
O objetivo não é ser perfeita — é ser inteira. É o processo de individuação de que Jung tanto nos fala.
Agradeça a esse conteúdo que veio à tona. Guarde o seu registro como um marco da sua caminhada. Você não é a sua onda emocional. Você é o oceano que permite que ela exista.
Você não precisa entender tudo de uma vez
Existe uma tendência que muitas de nós temos de querer que o processo seja rápido. Que a clareza chegue imediatamente. Que o descanso seja instantâneo. Mas o que este texto, e a flor que o originou, me ensinou é que a aproximação com o que há de mais puro em nós não tem pressa.
A arte manual não é uma técnica de produtividade. É uma linguagem. Uma linguagem que o inconsciente já conhece — e que você vai aprendendo a escutar à medida que pratica. Um risco, uma cor, um traço que não sabe para onde vai. É assim que começa.
E se naquele processo você se entediar, ótimo. O tédio também tem algo a dizer. Fique com ele. Deixe que o lápis continue se movendo mesmo quando a mente quiser parar. É exatamente aí — nessa pequena insistência silenciosa — que algo começa a se reorganizar.
“Você não é a sua onda emocional. Você é o oceano que permite que ela exista.”
Gratidão por chegar até aqui!
NAMASTÊ 🌿
Referência para aprofundamento
JUNG, Carl Gustav. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Tradução de Maria Luiza Appy e Dora Ferreira da Silva. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2023. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 9/1). JUNG, Carl Gustav. O Desenvolvimento da Personalidade. Tradução de Frei Valdemar do Amaral. Petrópolis: Vozes, 2013. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 17).
✦ Continue a travessia — leituras que se conectam a este texto:
Você já sentiu que, por mais que conquiste, algo no fundo diz que você não deveria estar ali? Esse sentimento, impregnado em nossa Sombra, é o que chamamos tecnicamente de não merecimento. Vamos explorar como essa ferida silenciosa afeta sua trajetória e por que dar um novo nome a ela é o primeiro passo para a cura.
Descubra como os sonhos atuam como a linguagem simbólica do inconsciente. Uma reflexão sobre a visão de Jung, sonhos lúcidos e o caminho para o autoconhecimento.
O que acontece quando paramos de brigar com o que sentimos? Descubra como a clareza emocional e o Human Design podem transformar sua relação com as emoções, trazendo mais leveza, presença e o respiro necessário para o seu caminhar.